direitos autorais de prosa, poesia e imagens: Priscila Prado
(salvo expressa diversa referência )


terça-feira, 6 de novembro de 2012

RIOS SEM DISCURSO


Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.

O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase a frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.
 

(João Cabral de Melo Neto)

terça-feira, 10 de julho de 2012

por um fio

 tramam três tricoteiras - no trabalho se entretecem

cores, formas, dias, meses

claras, fortes, firmes teias

de tricot – laçada e meia
 
teias ternas -não são tênues- vibram vivas como veias:

DNA de afeto e memória

da avó nos dedos das netas

- que o amor da mãe completa
 
quem vê o sangue a correr no fio?!- sangue vivo: invisível

mas aquecem suas fagulhas

entre os espaços pontos e laços

dançam a três balé das agulhas: trançam fios, fiam abraços

- ouve-se ainda o minueto

cantado sempre em alegreto

(para Nonna, Nilla, Ane e Angela) 

sexta-feira, 29 de junho de 2012

MINAS em minh'alma

                        o eco mora em Minas
alma
         alma
                   alma
alma

a calma mora em Minas
e faz eco em mim

o pouso mora em Minas
asa
      asa
               asa
asa

               o pouso em minha casa:
Minas em mim



(homenagem à Minas de minhas raízes e a meus amigos mineiros, novos e antigos)

segunda-feira, 21 de maio de 2012

link-se nos livros

“Os livros não mudam o mundo:

as pessoas mudam o mundo.

Os livros só mudam as pessoas."

(Monteiro Lobato)

the Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore (2011)

www.youtube.com

The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore (2011)

http://www.youtube.com/watch?v=Adzywe9xeIU&noredirect=1

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

ESTATÍSTICA

Contribuição para a estatística, Wislawa Szymborska

Em cada cem pessoas:

sabendo de tudo mais do que os outros:

- cinquenta e duas,

inseguras de cada passo:

- quase todas as outras,

prontas a ajudar

desde que isso não lhes tome muito tempo:

- quarenta e nove, o que já não é mau,

sempre boas porque incapazes de ser de outro modo:

- quatro; enfim, talvez cinco,

prontas a admirar sem inveja:

- dezoito,

induzidas em erro

por uma juventude afinal tão efémera:

- mais ou menos sessenta,

com quem não se brinca:

- quarenta e quatro,

vivendo sempre angustiadas

em relação a alguém ou a qualquer coisa

- setenta e sete,

dotadas para serem felizes:

- no máximo vinte e tal,

inofensivas quando sozinhas

mas selvagens quando em multidão:

- isso, o melhor é não tentar saber nem mesmo aproximadamente,

prudentes depois do mal estar feito:

- não mais do que antes,

não pedindo nada da vida excepto coisas:

- trinta, mas preferia estar enganada,

encurvadas, sofridas,

sem uma lanterna que lhes ilumine as trevas

- mais tarde ou mais cedo, oitenta e três,

justas

- pelo menos trinta e cinco, o que já não é nada mau,

mas se a isso juntarmos o esforço de compreender

- três,

dignas de compaixão:

- noventa e nove,

mortais:

- cem por cento,

número que, de momento, não é possível alterar.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

DESCOBERTA ARQUEOLÓGICA

NÓS SOMOS OS HOMENS PRÉ-HISTÓRICOS
EM RELAÇÃO AOS SERES DO FUTURO:
SOMOS PRECÁRIOS, GROSSEIROS, RUDES, OBTUSOS
- E PELUDOS.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

FELIZ PÁSCOA!

"Levai-me aonde quiserdes! - aprendi com as primaveras
a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira."

Cecília Meireles

quinta-feira, 24 de março de 2011

O MURO MUDO


ou: GRAFITO

o muro é o que separa
a casa da cidade
o muro é o que limita
- e o muro comunica

meu grito
está no muro
meu grito
é uma janela

o muro é a tela
do meu computador:
não falo com o mundo
- mas falo com você

(você está no mundo:
o mundo é você)